MS perde cantor e compositor Zenóbio Pecois, referência da música sertaneja no Estado

No começo da carreira, ele ganhou grande projeção no rádio de Aquidauana. As músicas "Passarinho que canta triste" e "Ensinando o Guarani" ganharam repercussão nacional.

Zenóbio, à esquerda, e o irmão Imar - Divulgação

Cantor e compositor que era uma das grandes referências da música sertaneja no Estado, Zenóbio Lopes Pecois, 76 anos, morreu na noite desta quinta-feira (12). Zenóbio estava internado no Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande. Apresentava complicações decorrentes de diabetes, além de uma infecção, e não resistiu após sofrer três paradas cardíacas.

Juntamente com o irmão, Imar Pecois, Zenóbio formou a famosa dupla “Filhos de Mato Grosso”, que, após a divisão do Estado, tornou-se “Filhos de Mato Grosso do Sul” e fez grande sucesso vendendo discos e realizando apresentações Brasil afora. As músicas “Passarinho que canta triste” e “Ensinando o Guarani” ganharam repercussão nacional.

O velório acontece na Capital, na capela da Nippon, na Rua Treze de Maio, 4477. O sepultamento vai ocorrer no Cemitério Jardim da Paz, também em Campo Grande.

O cantor deixa oito filhos e muitos netos.

Trajetória

Naturais de Bela Vista, filhos de Júlia Ricardi (paraguaia) com o violonista Pascoal Lopes Pecois (uruguaio), os Irmãos Pecois deram sequência ao dom musical do pai e se mudaram crianças para Miranda, onde, ainda com o nome de batismo, começaram a tocar em grandes festas.

Diante do sucesso, foram incentivados a procurar uma emissora de rádio em uma cidade próxima, Aquidauana, que despontava no cenário sul-mato-grossense como umas das principais reveladoras de talentos musicais sertanejos, principalmente pelos espaços destinados aos músicos do Estado na grade da programação da Rádio Difusora. Curioso & Barqueirinho, Aurélio Miranda, Amambai & Amambaí, Délio & Delinha, Romance & Romerinho são alguns dos artistas que se projetaram ainda mais nas ondas da emissora.

Com a participação em dois programas de rádio em Aquidauana, “Amanhecer no sertão” e “Entardecer no sertão”, os Irmãos Pecois tiveram de optar por um nome de trabalho. No ano de 1966, surgiu a dupla “Canário & Canarinho”, que não durou muito, após descobrirem que no interior de São Paulo já existia uma formação registrada com esse nome. Como a dupla tinha o espaço aberto com o público que a Rádio Difusora proporcionava, promoveu uma enquete com os ouvintes para a escolha do próximo nome. Depois de muitas sugestões, a escolha por foi “Guarantã & Guarany”.

O primeiro produtor cultural a acreditar e investir na dupla foi o professor Filomeno Ramos, que assinou um contrato de seis meses e programou uma série de shows em várias cidades do ainda uno Mato Grosso. Durante a turnê, os irmãos conheceram Corumbá, onde surgiram muitas oportunidades de trabalho, inclusive, na emissora da cidade, a Rádio Clube. Após o fim do contrato com Filomeno, eles resolveram fazer da cidade pantaneira a morada da dupla.

Em Corumbá, sob influência da “Jovem Guarda” e do sucesso do “Rei” Roberto Carlos, investiram em músicas para o público jovem da época, mudaram de nome para melhor identificação com o novo estilo e se tornaram “Nilson & Nelson”. Com a nova fase, conseguiram patrocínio e gravaram um compacto simples com as músicas “Rosa” e “Mundo”, disco que se tornou o primeiro registro fonográfico da dupla.

Mudança de rotina e formação definitiva

Em 1967, Zenóbio iniciou relação com Eva Alves Ribeiro, moradora da cidade e fã da dupla. Em seguida, Imar se casou. Mesmo após um período de mudanças na rotina, em que se dedicaram mais a cuidar das famílias, os laços dos irmãos com a música se mantiveram por um programa de rádio. Com a audiência, eles conseguiram patrocínios de fazendeiros da região, foram para São Paulo e gravaram o primeiro disco de vinil da dupla, agora com nome definitivo, “Os Filhos de Mato Grosso”, mudando-se para Campo Grande, novo polo econômico-cultural de Mato Grosso.

Graças às amizades conquistadas ao longo dos anos anteriores no meio artístico, os irmãos, aos poucos, ganharam espaço no mercado da música local. Nesse período, muitos artistas do Estado estavam em ascensão em nível nacional em virtude do grande investimento feito em talentos da terra pelas gravadoras “Califórnia”, “Chantecler” e “Cerro Corá” do Paraguai. Nomes como Délio & Delinha, Zé Corrêa, Amambai & Amambaí, Dino Rocha, Jandira & Benitez apareciam na mídia nacional.

Outro cenário favorável aos irmãos era a grande aceitação da música paraguaia entre os consumidores de música sertaneja em várias regiões do país. Como passaram boa parte da infância na fronteira seca entre o Brasil e o Paraguai, decidiram investir novamente na gravação de um disco inédito utilizando essas influências. Montaram um “verdadeiro grupo paraguaio”, com harpas, violões, contrabaixo, acordeon e um figurino que não deixava dúvidas de sua origem. Em 1977, assinaram contrato com a gravadora Chantecler e gravaram o LP “Passarinho que canta triste”, que viria a se tornar o principal trabalho dos irmãos à frente da formação “Os Filhos de Mato Grosso”, que se mostrou um grande sucesso ao longo das décadas seguintes, já como “Os Filhos de Mato Grosso do Sul”.

No ano de 2016, os irmãos comemoraram 50 anos de trabalho em prol da música sertaneja no Estado, totalizando a gravação de um compacto simples, quatro discos de vinil e cinco CDs. Já em 2017, Zenóbio se tornou destaque até na televisão por outro motivo, ao se casar com Eva Alves Ribeiro (veja o casal na foto abaixo) depois de 50 anos, formalizando a união com quem já era fã de seu trabalho desde o início da carreira. (*Com informações de Claudinei Pecois)